
Um cenário de natureza exuberante, vestígios históricos e um certo misticismo compõem a experiência vivida pelo servidor público Tiarles Almeida no último fim de semana, em uma trilha localizada na comunidade de Bom Princípio, interior de Santo Cristo. O local, de difícil acesso, tem atraído visitantes em busca de aventura, conexão com a natureza e um mergulho na história ancestral da região.
A jornada até o destino começa com quilômetros de asfalto, seguidos por um trecho de estrada de chão em más condições, que dá acesso a uma área de mata densa, em propriedade privada. Um pórtico de boas-vindas e duas estátuas homenageando os povos indígenas sinalizam a entrada ao local, marcado pela presença de grupos originários como os Humaitás e Embús — povos que, segundo estudos arqueológicos, ocuparam a região há cerca de 12 mil anos.
O esforço para chegar até o ponto principal da trilha é compensado pela paisagem que se revela: um paredão de pedras com cerca de cinco metros de altura, de onde despenca uma cachoeira que pode ser observada por trás da cortina d’água. Próximo ao paredão, há também uma pequena caverna, ou gruta, com cerca de 1,5 metro de altura por 3,5 metros de profundidade.
“É um lugar espirituoso, de paz. A energia que se sente ali é diferente. Você pode até cansar para chegar, mas volta leve”, descreve Tiarles, que esteve no local acompanhado por um guia.
Além da beleza natural, a região carrega uma forte carga histórica. A presença indígena é marcada por achados como urnas funerárias e objetos de cerâmica, que hoje compõem o acervo do Museu Municipal Alcir Philippsen. O nome “Santo Cristo” remonta ao período das reduções jesuíticas, quando os indígenas da Redução de Santo Ângelo Custódio cultivavam e processavam erva-mate na área, utilizando estruturas chamadas “carijos”.
A cultura oral também preserva memórias e lendas locais. Moradores relatam que algumas casas foram erguidas sobre antigos cemitérios indígenas, fato revelado por um benzedor que foi chamado após relatos de sons estranhos, vultos e problemas recorrentes. Segundo essas narrativas, após rituais de reconciliação, a paz voltou a reinar nas residências.
A trilha de Bom Princípio é mais do que um passeio ecológico: é um encontro com a ancestralidade, a história e a espiritualidade da região missioneira. Para os interessados, recomenda-se ir acompanhado de alguém que conheça o trajeto, por conta do isolamento e da sinalização inexistente.
Fonte: Jornal Sentinela
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