"Esta terra tem dono": documentário revela a força viva da cultura missioneira

"Esta terra tem dono": documentário revela a força viva da cultura missioneira
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No coração das Missões, o grito de Sepé Tiaraju em 1756 ecoa até hoje como símbolo de resistência e identidade. Esta reportagem mergulha na herança cultural missioneira — das ruínas jesuíticas ao artesanato, da música à espiritualidade indígena — revelando como a memória de um povo segue viva na arte, na fala e na história do Sul do Brasil. Um testemunho vibrante de que esta terra, sim, tem dono.  

Produzido por Beatriz Chetco, Eduardo Cosentino e Pâmela Anschau


No coração das Missões, a frase de Sepé Tiaraju, em 1756, "Esta terra tem dono!", permanece como símbolo de resistência e orgulho identitário. Muito mais do que uma simples frase, representa o grito ancestral que atravessa gerações e ecoa na cultura, no artesanato, na música e nas expressões espirituais do povo missioneiro.

Um passado que ecoa

As Missões Jesuíticas, fundadas entre os séculos XVII e XVIII, deixaram marcas profundas na região. Embora parte da história envolva conflitos e perdas, o espírito missioneiro permanece vivo no rosto, na fala e nos costumes do povo sul-rio-grandense.

“O mundo encontrado naquela época, como o de hoje, não era perfeito. Era real, com pressões territoriais, batalhas e particularidades, mas formado por um povo de garra, religiosidade, costumes e espiritualidade”, recorda o historiador José Roberto de Oliveira. Ele enfatiza: “Aquela gente não morreu, os descendentes daquela gente estão vivos aí. É a nossa gente.”

Cultura e arte que resistem

As ruínas de São Miguel das Missões, tombadas pela Unesco, são o símbolo mais conhecido dessa herança. Elas fazem parte de um complexo de trinta reduções espalhadas entre Brasil, Argentina e Paraguai, que formavam verdadeiras cidades com indústrias de couro, escultura, fundição e móveis.

A produção artística floresceu nas reduções, com destaque para esculturas, arte sacra e arquitetura. O escultor austríaco Valentin Von Adamovich, ao se apaixonar pela história das Missões, deixou seu legado em pedra grês em várias cidades da região, como Cerro Largo, Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga. Um elo forte entre a arte europeia e a alma missioneira.

A arquitetura também traz essa marca. O historiador Rodrigo Maurer defende que ela reflete um pensamento mestiço, gerando um legado de valor incalculável. “As estruturas erguidas nesse período revelam uma adaptação criativa do estilo europeu às condições locais.”

Artesanato: memória em movimento

O artesanato missioneiro é um dos pilares culturais que resistem ao tempo. Em Caibaté, a Cutelaria e Museu Missioneiro já passa por três gerações. “Nosso trabalho vai além do lucro. Criamos um espaço onde reunimos memórias, porque acreditamos que isso agrega muito, ajudando as pessoas a conhecerem e valorizarem a história da nossa região”, relata um dos proprietários do museu, João Vitor Corrêa.

O historiador Charlei Knebel Willers também criou seu próprio museu. “Manter a cultura missioneira é uma luta constante”, afirma. Ele critica a falta de espaço nos materiais escolares: “Nos livros didáticos, quando muito, há meia página dedicada às Missões.”

No território indígena Koenju, em São Miguel das Missões, o artesanato é produzido com sementes, folhas, penas, madeira e pedra. Fabiana, indígena Guarani, diz com orgulho: “É o nosso trabalho, o trabalho do nosso povo.”

A música missioneira

A melodia missioneira carrega nas notas a bravura e o sentimento de um povo. “Eu conto a história do valor da nossa terra, todo esse legado que vem desde o tempo dos indígenas e jesuítas”, diz o cantor Emerson Gottardo, que valoriza o jeito missioneiro de cantar. Para ele, a emoção vem da verdade: “Nenhuma canção é cantada por cantar; elas sempre têm um propósito.”

Seu primo, Renato Gottardo, afirma com firmeza: “O que aconteceu nos Sete Povos das Missões foi uma chacina.” Ele ressalta a força da identidade musical da região: “Ela tem uma identidade de cantar com muita garra, mas, ao mesmo tempo, com muita melodia. Sempre contando a história desses ‘peleadores’, como o Índio Sepé.”

A cantora Marines Siqueira, busca promover a cultura em suas músicas e no projeto “Gaiteiro dos Sete Povos”, atuando em colégios e asilos: “É gratificante levar nossa cultura para que outras pessoas a conheçam.”

Já o grupo As Maragatas, formado por jovens de São Miguel das Missões, leva a força da mulher missioneira para todo o país. “Temos orgulho de cantar a nossa terra e levar o nosso legado a todos os lugares onde nos apresentamos”, destacam.

Patrimônio vivo

O turismo é hoje uma das formas mais eficazes de manter o legado missioneiro. Um dos destaques recentes é a Mostra de Cinema das Missões, realizada ao ar livre no Sítio Arqueológico São Miguel Arcanjo. “Queremos que as pessoas se sintam presentes e conectadas com a história”, afirma o diretor criativo Darius Pippi.

A produtora curatorial Manuela Fetter Nicoletti complementa: “Buscamos filmes que refletissem essa mesma realidade em outros lugares do mundo. Tudo isso para promover a conscientização sobre o que é um patrimônio histórico material e imaterial.”

O grito que ainda ecoa

Mesmo diante de séculos de adversidades, os povos indígenas seguem firmes em sua identidade. A historiadora Bedati Aparecida Finokiet conclui: “Os guaranis continuam sendo guaranis. Mesmo com as perdas, seguem mantendo sua espiritualidade e cultura. Está tudo conectado.”

O grito de Sepé Tiaraju não foi apenas uma resistência à colonização. Foi um marco da existência e da permanência de um povo. E, até hoje, continua ecoando pelas pedras das ruínas, pelas mãos dos artesãos e pelas vozes que cantam a história dessa terra.