
MATÉRIA PUBLICADA NA EDIÇÃO IMPRESSA DO DIA 22 DE AGOSTO
Em cada traço, no peso do concreto e na delicadeza do detalhe, Adenildo Martins imprime mais do que técnica: ele dá forma à fé, à memória e à cultura de um povo. Aos 48 anos, o cerrolarguense é hoje um dos escultores que se destacam na região missioneira, com obras que ultrapassam os limites do tempo e da geografia.
Natural de Cerro Largo e criado no Bairro Brasília, ele percorreu um longo caminho até transformar sua paixão em profissão. Em 2015, decidiu deixar o emprego estável na empresa Carpenedo para se dedicar inteiramente à arte. A escolha exigiu coragem, mas lhe abriu portas para um universo criativo que não para de crescer.
“Meus primeiros trabalhos foram em argila. Depois vieram as peças em madeira, em 2015 e, em 2018, comecei a trabalhar com concreto. Ele se tornou meu principal aliado, porque garante resistência às esculturas, que suportam sol, chuva e permanecem firmes no tempo”, explica.
Do esboço à grandiosidade
O processo de criação é quase um ritual. Tudo começa no papel, com o desenho inicial da obra. Em peças maiores, Adenildo prepara uma maquete em miniatura, que serve de guia para a versão definitiva. No concreto, a paciência é indispensável: cada camada precisa ser aplicada e respeitar o tempo de secagem.
Não à toa, suas obras chamam a atenção pela imponência ou importância. Uma das mais recentes é a imagem de São Roque, instalada na Capela São Roque, em Sete de Setembro. Com 1,12m de altura e mais de 100kg, a escultura foi inaugurada em festa comunitária no último fim de semana.
Agora, ele enfrenta outro grande desafio: a criação de um São Miguel Arcanjo de 1,80m e cerca de 1.500kg, encomendado por um morador daquela cidade. O trabalho deve levar pelo menos três meses para ser concluído e as primeiras camadas já podem ser vistas em frente à sua casa, onde o projeto ganha molde.
Reconhecimento e marcas pela região
Somente em Cerro Largo, Adenildo estima ter mais de cem obras de madeira espalhadas por residências, pontos comerciais ou igrejas. Outras tantas estão presentes em cidades vizinhas e região, levando sua assinatura a diferentes espaços de devoção e contemplação.
Entre as mais marcantes de sua carreira está a escultura de São José com uma criança no colo, com 3,20m de altura. “Foi um desafio enorme. Demorou quatro meses para ficar pronta, coincidindo também o nascimento da minha filha”, relembra.
Outra obra de grande significado é o busto em homenagem ao Soldado Fabiano Heck Lunkes, morto em combate no dia 25 de abril de 2019, em Porto Xavier, durante buscas a indivíduos que assaltaram o Banco do Brasil daquela cidade. A escultura se tornou símbolo de respeito e memória à coragem do policial.
Missões 400 anos: um legado esculpido
O nome de Adenildo também ficará registrado na celebração dos 400 anos das Missões. Ele foi escolhido para esculpir duas peças especiais: a imagem de um padre e de uma família indígena — pai, mãe e criança de colo. As esculturas estarão expostas no Parque Missioneiro, em Porto Xavier, e integrarão oficialmente a programação histórica que marcará a região.
Da inspiração ao futuro
O artista não está sozinho nessa caminhada. Ele se inspira em artistas locais e também em escultores internacionais, especialmente da Rússia e da Alemanha, cujas obras acompanha à distância por meio das tecnologias. Para ele, cada novo projeto é uma oportunidade de superar limites.
“O maior reconhecimento é quando alguém olha para uma obra minha e se emociona. É nesse momento que sei que todo esforço valeu a pena”, afirma.
De Cerro Largo para o mundo, o escultor segue moldando em concreto e madeira muito mais do que figuras. Suas mãos dão vida a símbolos de fé, cultura e identidade.
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