
Aos 82 anos, Aurélia Opala de Castro relembra os horrores da guerra, a travessia ao Brasil e a construção de uma nova vida no interior do Rio Grande do Sul. Entre bordados, fé e canções polonesas, ela preserva a identidade cultural de seu povo em Guarani das Missões.
O ano era 1943. Em plena Segunda Guerra Mundial, nascia na Polônia Aurélia Opala de Castro, em uma cidade que hoje pertence ao território da Ucrânia. Ainda pequena, ela já reconhecia os sons dos aviões que bombardeavam o país, deixando para trás caos e destruição. Escolas, igrejas e empregos simplesmente não existiam — tudo havia sido devastado pela guerra.
Com o fim do conflito, em 1945, a situação não melhorou. As doações enviadas por outros países eram insuficientes para atender à população, e muitos enfrentavam privações extremas. Foi nesse cenário que sua mãe, Josefa, decidiu partir com as três filhas, entre elas Aurélia, em busca de uma vida melhor, incluindo a oportunidade de dar estudo às filhas, um de seus sonhos.
Embora fosse apenas uma criança, Aurélia guarda lembranças vivas daquele período e de muitas histórias que ouviu de sua família durante a jornada em busca de um novo lar. O destino os levou para longe da terra natal, como aconteceu com tantos outros poloneses que emigraram rumo ao Brasil, Argentina e Dinamarca. “Lembro que, quando perguntaram à minha mãe para onde queria ir, ela foi clara: 'Para um país onde não tenha guerra'”, recorda.
A família foi incluída no último grupo de poloneses destinados ao Brasil. Outros já haviam desembarcado anteriormente, incluindo os primeiros colonizadores do país. A travessia até o continente sul-americano foi feita de navio, em uma viagem que durou de quinze a vinte dias. Na época, Aurélia tinha apenas cinco anos.
“Lembro de duas coisas ruins como se fosse hoje: o cheiro de peixe podre e o balanço do navio, que causava vômito e febre em muitas pessoas. Felizmente, nós não fomos afetadas”, relata. Mas nem tudo era desconforto: ela também se recorda da alegria proporcionada por um parque infantil dentro da embarcação. Os navios, originalmente construídos para transporte de material bélico, foram adaptados para acolher refugiados de guerra.
A bagagem era modesta: apenas roupas e utensílios domésticos. A realidade no país de destino, no entanto, era bem diferente. “Quando chegamos ao Rio de Janeiro, sentimos logo a diferença do clima. Era quente, e nós só tínhamos roupas de inverno, com cobertas feitas de penas de ganso. Não sabíamos que no Brasil fazia calor, mas fomos acolhidos pela comunidade local, que nos ajudou com roupas adequadas”, conta.
Na Embaixada Polonesa, foi feito o registro oficial de entrada no país. Aurélia lembra que o Brasil aceitava imigrantes devido à necessidade de mão de obra.
Do Rio de Janeiro, seguiram para Porto Alegre, onde permaneceram por alguns meses até serem encontradas por um comerciante da região noroeste do estado que lhes ofereceu trabalho. Na época, as famílias eram numerosas e os casais não conseguiam dar conta do trabalho sozinhos. Assim, a família Opala viajou novamente até chegar à região, onde passou a trabalhar em troca de comida e abrigo.
A chegada a Guarani das Missões aconteceu dois anos depois da entrada no Brasil. Josefa e as crianças foram acolhidas pela família de Valeriamo Wastowski, que tinha oito filhos e morava onde hoje fica a Linha Bom Jardim. Naquele tempo, o município de Guarani das Missões ainda nem existia oficialmente. “Era uma época em que não havia água potável, nem luz, nem calçamento”, relembra Aurélia.
O idioma foi o maior desafio. Não era permitido falar polonês nas escolas. As dificuldades da época eram muitas: comida, roupas e até itens básicos faltavam. “Mas trabalho não faltava, porque tudo era feito manualmente, e eu já ajudava desde cedo. Algumas famílias foram solidárias conosco e nos auxiliaram como podiam”, acrescenta.
Hoje, aos 82 anos, relembrando o passado, Aurélia é direta: não sente saudades dos tempos difíceis. Sua fala expressa a dureza da vida que enfrentou ao sair de um país em guerra e começar do zero em um lugar completamente novo.
Hoje, morando há décadas na Linha Bom Jardim, ela observa com orgulho as transformações da região. “Muito mudou desde então. Quando cheguei, era uma colônia com algumas casas de poloneses e seus descendentes. Hoje, Guarani das Missões tem estrutura de cidade do interior, com muitos avanços. A agricultura, por exemplo, já não é mais manual”, destaca.
A última imigrante polonesa viva de Guarani das Missões
Durante a entrevista, Aurélia faz questão de deixar claro que ser a única imigrante polonesa viva em Guarani das Missões não é um privilégio. “Foi Deus quem traçou esse destino para mim.” Mesmo diante de tantas dificuldades, ela mantém vivos os costumes e tradições polonesas. A fé, a religião, a culinária, o artesanato e o canto religioso e popular seguem presentes no seu dia a dia.
Se inserindo na sociedade local, Aurélia, com a união de amigas, gravou um CD com músicas polonesas e, em várias ocasiões de missa, participa das celebrações cantando e tocando.
Entre os tesouros que trouxe da Polônia, estão receitas que continuam sendo preparadas, como sopas típicas. Ela também destaca o pierogi, recheado com pêssego, maçã, ameixa, uva ou mesmo com requeijão salgado e bacon.
As tradições de Páscoa e Natal também foram preservadas, marcadas por refeições especiais, contos tradicionais e celebrações familiares repletas de espiritualidade. Em sua casa, um quadro de Nossa Senhora de Czestochowa, trazida pela irmã mais velha, Alice, diretamente da Polônia, simboliza essa ligação profunda com as raízes do seu país de origem — um marco da fé e da cultura que sua família ajudou a construir e manter viva em Guarani das Missões.
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