
MATÉRIA PUBLICADA NA EDIÇÃO IMPRESSA DO DIA 7 DE AGOSTO
Ela sabe exatamente como é ouvir o barulho de uma cela se fechando. Sabe o que significa esperar por uma decisão da Justiça. Conhece o sofrimento de uma família do lado de fora e a angústia de quem perde a liberdade. Mas também conhece o outro lado: hoje é ela quem ocupa a tribuna do Tribunal do Júri para defender pessoas que vivem momentos semelhantes.
A trajetória da advogada criminalista Maria Odila Marques da Silva Dorneles foge completamente do convencional. Antes de vestir a beca, ela foi presa. Antes de sustentar teses de defesa diante dos jurados, esteve sentada no banco dos réus. Antes de estudar a execução penal nos livros, viveu cada etapa dela na prática.
Infância simples e um sonho antigo
Maria Odila nasceu em Porto Xavier. Filha de um peão de fazenda e de uma dona de casa, cresceu em uma residência simples, coberta de capim, onde nunca houve luxo, mas nunca faltaram carinho, trabalho e esperança.
Ela recorda uma infância feliz ao lado dos pais, avós e primos. Apesar das dificuldades financeiras, descobriu muito cedo um mundo que mudaria sua vida: a leitura.
Antes mesmo de ingressar na escola, já sabia ler. Uma professora da família despertou nela esse interesse ainda aos quatro anos de idade. A partir dali, os livros passaram a alimentar um sonho que parecia distante para uma menina do interior: tornar-se advogada.
Quando a vida mudou de rumo
A família mudou-se para Cerro Largo quando Maria Odila tinha oito anos. Foi ali que viveu praticamente toda a adolescência.
Estudou no Colégio Eugênio Frantz, fez amizades que guarda até hoje e também conheceu o pai de sua filha. Aos 16 anos, engravidou de Samara e precisou interromper os estudos.
A maternidade trouxe novas responsabilidades e também dificuldades financeiras.
Buscando sustentar a família, passou a viajar ao Paraguai e ingressou no contrabando de mercadorias. Com o tempo, conseguiu comprar casa própria e melhorar a condição de vida da família.
Mesmo assim, nunca abandonou o desejo de estudar. Em 1994 concluiu o ensino médio por meio do supletivo e, em 2002, ingressou no curso de Direito. Parecia que finalmente o sonho começava a se concretizar.
A Operação Bola de Fogo
Na manhã de 10 de outubro de 2006, tudo mudou.
Às seis horas da manhã, a casa onde morava foi cercada por agentes da Polícia Federal. A investigação, segundo ela relata, já durava cerca de um ano e quatro meses, com escutas telefônicas e outras diligências.
Maria Odila foi presa preventivamente durante a Operação Bola de Fogo, que investigava o contrabando de cigarros. Naquele mesmo dia foi levada de avião para Porto Alegre, onde permaneceu presa por 94 dias.
Posteriormente foi transferida para o Presídio Estadual de Cerro Largo, onde permaneceu cumprindo pena. Ao todo, foi condenada a 11 anos de prisão e não teve o direito de responder ao processo em liberdade. Somando o período entre os regimes fechado e semiaberto, permaneceu presa durante 1.097 dias — pouco mais de três anos.
Da cela para a sala de aula
O que poderia representar o fim definitivo de seus projetos tornou-se um ponto de virada. Em 8 de abril de 2008, quando conquistou o direito ao regime semiaberto, Maria Odila deixou o presídio e não foi para casa descansar. Foi direto para a faculdade.
Ela conta que a filha Samara a esperava em frente ao presídio. Passou rapidamente em casa para buscar materiais de estudo e, logo depois, embarcou no ônibus rumo à universidade.
Durante três semestres, repetiu a mesma rotina diariamente. Saía do presídio no fim da tarde para frequentar as aulas e retornava por volta da meia-noite para cumprir a pena. Nos finais de semana permanecia recolhida, retornando às atividades apenas na segunda-feira pela manhã.
Depois vieram a liberdade condicional, a conclusão da graduação e, posteriormente, a aprovação no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
A experiência que transformou a advocacia
Hoje, reconhecida pela atuação no Tribunal do Júri, Maria Odila afirma que sua experiência pessoal transformou completamente sua forma de enxergar o Direito. Ela conhece a dor da prisão não pelos livros, mas pela própria vivência. Por isso, diz compreender o sofrimento das famílias que aguardam uma decisão judicial e acredita que cada processo representa muito mais do que um número: representa uma vida inteira.
Ao longo da carreira, também precisou enfrentar outro julgamento: o preconceito. Ela relata que ainda sofre discriminação por seu passado, inclusive em ambientes profissionais. Em vez de esconder a própria história, decidiu torná-la pública como forma de incentivar pessoas que acreditam não haver mais possibilidade de recomeço. Para ela, sua trajetória é a prova de que um erro não precisa definir o restante da vida.
Na advocacia criminal, Maria Odila encontrou mais do que uma profissão. Encontrou um propósito. Ela define o advogado criminalista como alguém que lida diariamente com vidas humanas, liberdade, esperança e dignidade. Defende que o papel da defesa não é justificar crimes, mas garantir que todas as pessoas tenham seus direitos respeitados, independentemente da acusação que enfrentem.
Sua fé também ocupa lugar central nessa caminhada. Segundo ela, foi durante o período na penitenciária que teve um profundo encontro com Jesus Cristo, experiência que considera decisiva para reconstruir sua vida. Hoje, afirma exercer a advocacia como uma missão e procura levar essa mensagem de esperança às pessoas que atende.
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